Pangeia: quando quase todos os continentes da Terra formavam um único mundo
Há centenas de milhões de anos, as terras que hoje formam Brasil, África, Europa, América do Norte, Ásia e outras regiões estavam conectadas. A fragmentação desse gigantesco supercontinente transformou oceanos, clima e a própria evolução da vida.
Por Renan Cassiano, Redator e produtor de conteúdo digital.
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Imagine olhar para um mapa da Terra e não encontrar o Oceano Atlântico separando o Brasil da África. Em vez dos continentes distribuídos pelo planeta como conhecemos hoje, quase todas as grandes massas de terra estariam conectadas em um único e gigantesco território.
Esse mundo existiu e recebeu o nome de Pangeia.
O supercontinente começou a se formar há cerca de 335 milhões de anos, durante a era Paleozoica, a partir da colisão gradual de massas continentais anteriormente separadas. Sua configuração mudou ao longo de milhões de anos e, posteriormente, começou a se fragmentar, num processo que acabaria dando origem aos continentes atuais.
Um único e gigantesco continente
O nome Pangeia deriva do grego e transmite a ideia de “toda a Terra”. A denominação está associada ao meteorologista e geofísico alemão Alfred Wegener, responsável por desenvolver, no início do século XX, a teoria da deriva continental.
Durante sua existência, grande parte das terras continentais do planeta estava reunida. Ao redor encontrava-se Panthalassa, um enorme oceano que ocupava grande parte da superfície terrestre.
A leste da Pangeia existiam também sistemas oceânicos associados ao Paleo-Tétis e ao Tétis, que desempenharam papéis importantes na evolução geológica daquela região.
Era uma Terra profundamente diferente da atual. Não existiam países, obviamente, mas também não existiam continentes com as formas que hoje reconhecemos nos mapas.
Brasil e África já estiveram unidos
Uma das consequências mais fascinantes dessa história pode ser observada diretamente no mapa atual.
A costa oriental da América do Sul apresenta uma correspondência aproximada com a costa ocidental da África. Essa semelhança ajudou a alimentar as primeiras ideias sobre deslocamento continental, mas as evidências científicas modernas vão muito além do simples formato das costas.
Correspondências entre estruturas geológicas, fósseis encontrados em continentes hoje separados e, posteriormente, evidências provenientes do fundo dos oceanos ajudaram a consolidar o entendimento moderno da tectônica de placas.
Isso significa que as terras que atualmente pertencem ao Brasil e partes da África já estiveram conectadas dentro de Gondwana, uma das grandes massas continentais associadas à fragmentação da Pangeia.
O Oceano Atlântico que hoje separa os dois lados ainda não existia em sua configuração atual.
Como a Pangeia começou a se separar?
A Pangeia não se partiu de uma vez. A transformação ocorreu lentamente, durante dezenas de milhões de anos.
A movimentação das placas tectônicas começou a produzir grandes sistemas de riftes, fraturas que progressivamente separaram partes do supercontinente. A fragmentação estava em andamento por volta de 200 milhões de anos atrás, no início do período Jurássico.
De maneira simplificada, a Pangeia passou a se dividir em dois grandes conjuntos continentais: Laurásia, ao norte, e Gondwana, ao sul.
Essas enormes massas também continuaram se fragmentando.
Gondwana, por exemplo, estava relacionada às terras que posteriormente formariam América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia. A Laurásia estava relacionada principalmente à América do Norte, Europa e grande parte da Ásia.
O nascimento do Oceano Atlântico
A fragmentação teve uma consequência gigantesca: novos oceanos começaram a surgir entre as terras que se afastavam.
Quando América do Sul e África começaram a se separar, a crosta foi sendo esticada e rompida. Material proveniente do interior terrestre contribuiu para a formação de nova crosta oceânica, ampliando progressivamente o espaço entre os continentes.
Ao longo de milhões de anos, esse processo participou da formação do Oceano Atlântico Sul.
A separação entre América do Sul e África ocorreu principalmente durante o Cretáceo, muito depois do início da fragmentação da Pangeia.
E o processo não terminou.
As placas tectônicas continuam se movimentando atualmente, ainda que normalmente a velocidades de apenas alguns centímetros por ano. Em escalas de milhões de anos, porém, esses pequenos deslocamentos são suficientes para redesenhar completamente o planeta.
Como era o clima dentro da Pangeia?
Viver no interior de um supercontinente gigantesco significava estar muito distante da influência moderadora dos oceanos.
Estudos paleoclimáticos indicam forte continentalidade, com grandes diferenças sazonais e extensas regiões áridas ou semiáridas no interior da Pangeia. A circulação atmosférica também era profundamente influenciada pela configuração das terras e oceanos.
A geografia do planeta interfere diretamente no clima. Montanhas alteram ventos e chuvas; continentes interferem nas correntes oceânicas; oceanos armazenam e redistribuem calor.
Portanto, mover continentes significa, em escalas geológicas, reorganizar parte da própria máquina climática terrestre.
A Pangeia também mudou a história da vida
A união das terras teve consequências importantes para animais e plantas.
Com grandes extensões continentais conectadas, determinados organismos podiam se distribuir por territórios que atualmente estão separados por milhares de quilômetros de oceano.
Quando essas terras começaram a se afastar, populações passaram a ficar geograficamente isoladas. Ao longo de enormes períodos, o isolamento pode favorecer trajetórias evolutivas diferentes.
É uma das razões pelas quais a história da tectônica está profundamente conectada à história da evolução.
Os fósseis também forneceram pistas importantes sobre essa antiga conexão. Um exemplo clássico é o Mesosaurus, réptil de água doce cujos fósseis foram encontrados tanto na América do Sul quanto na África. A distribuição seria difícil de explicar pela existência do atual Oceano Atlântico entre as duas regiões.
A Terra poderá formar outra Pangeia?
A história fica ainda mais interessante quando olhamos para o futuro.
Pangeia não foi o único supercontinente da história terrestre. Evidências geológicas indicam que grandes massas continentais se reuniram e se fragmentaram diversas vezes, num fenômeno conhecido como ciclo dos supercontinentes.
Isso significa que a posição atual dos continentes também não é permanente.
Em dezenas ou centenas de milhões de anos, o mapa da Terra será muito diferente. Existem diferentes modelos científicos para tentar prever essa configuração futura, mas não há consenso sobre exatamente onde e como os continentes voltarão a se reunir.
O planeta que hoje parece geograficamente estável é, na escala do tempo geológico, uma fotografia de um instante.
Uma transformação que ainda acontece sob nossos pés
A história da Pangeia ajuda a revelar uma característica extraordinária do nosso planeta: a superfície da Terra está em constante transformação.
Montanhas surgem, oceanos se abrem e desaparecem, continentes colidem e regiões que hoje estão separadas por milhares de quilômetros já estiveram lado a lado.
Foram necessários milhões de anos para transformar a Pangeia no mundo atual. E, enquanto vivemos sobre esses continentes aparentemente imóveis, as placas continuam sua viagem silenciosa.
Daqui a milhões de anos, o mapa que hoje consideramos familiar será apenas mais um capítulo antigo da história geológica da Terra.
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