Portugal chega a quase 1,6 milhão de estrangeiros: os números que mostram como a imigração transformou o país
Um em cada sete residentes tem nacionalidade estrangeira. Brasileiros se aproximam de meio milhão, Lisboa já tem 200 mil estrangeiros, eles representam metade da população. Na economia, trabalhadores estrangeiros contribuíram com mais de €4,1 bilhões para a Segurança Social em 2025.
Por Renan Cassiano, Redator e produtor de conteúdo digital.
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Portugal mudou profundamente em menos de uma década.
Nas ruas de Lisboa, nos restaurantes do Algarve, nas obras, empresas de tecnologia, hospitais, hotéis, campos agrícolas e universidades, essa transformação pode ser percebida diariamente.
Agora, os números ajudam a dimensioná-la.
Portugal terminou 2025 com 1.585.854 cidadãos estrangeiros residentes, segundo o novo Relatório de Migrações e Asilo da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA).
São aproximadamente 38 mil pessoas a mais que no ano anterior. Fonte: RTP
O número equivale a aproximadamente 13,9% dos 11,4 milhões de residentes do país. Em termos simples, praticamente uma em cada sete pessoas que vivem em Portugal tem nacionalidade estrangeira. Fonte: RTP
Mas o número de 2025 conta apenas parte da história.
Para entender o tamanho da transformação, é preciso voltar alguns anos.
De 422 mil para 1,58 milhão: o salto aconteceu em apenas oito anos
Em 2017, Portugal contabilizava 421.802 estrangeiros residentes.
Em 2025, eram 1.585.854.
Isso significa que a população estrangeira ficou aproximadamente 3,8 vezes maior em oito anos. Fonte: AIMA
A evolução mostra a velocidade dessa mudança:
2017 = 421.802
2018 = 480.670
2019 = 592.210
2020 = 666.830
2021 = 714.508
2022 = 992.837
2023 = 1.304.833
2024 = 1.543.697
2025 = 1.585.854
O salto mais intenso aconteceu no início desta década.
Entre 2021 e 2025, Portugal ganhou aproximadamente 871 mil residentes estrangeiros.
Mas 2025 trouxe uma mudança importante.
A imigração continua crescendo, mas pisou no freio
O número de estrangeiros ainda aumentou em 2025, porém a uma velocidade muito menor.
O crescimento foi de aproximadamente:
+39% EM 2022
+31,4% em 2023
+18,3% em 2024
+2,7% em 2025
A AIMA interpreta essa desaceleração como um sinal de estabilização das novas entradas e consolidação da comunidade estrangeira já instalada no país.
Portanto, existe uma diferença importante entre duas afirmações aparentemente contraditórias.
Portugal tem hoje muito mais estrangeiros do que há poucos anos.
Mas, ao mesmo tempo, o ritmo de crescimento dessa população desacelerou fortemente em 2025.
Quase meio milhão são brasileiros
Nenhuma nacionalidade chega perto da presença brasileira.
No final de 2025, 493.622 brasileiros residiam em Portugal.
Eles representam aproximadamente 31,1% de toda a população estrangeira do país.
Ou seja, quase um em cada três estrangeiros residentes em Portugal é brasileiro.
Depois aparecem:
Brasil = 493.622
Angola = 99.050
Índia = 91.405
Ucrânia = 84.889
Cabo Verde = 71.005
Nepal = 56.304
Bangladesh = 55.579
Guiné-Bissau = 51.935
Reino Unido = 47.726
Itália = 42.418
Os países de língua portuguesa, considerados em conjunto, representam quase metade da população estrangeira residente.
Outra mudança ocorreu no segundo lugar do ranking: Angola ultrapassou a Índia, tornando-se a segunda maior comunidade estrangeira em Portugal.
A imigração portuguesa tem um detalhe fundamental: 84,6% estão em idade ativa
Esse número ajuda a compreender o impacto econômico.
Segundo os dados da AIMA, 84,6% da população estrangeira residente tem entre 18 e 64 anos.
Apenas cerca de 6,3% têm 65 anos ou mais, enquanto 9,1% são menores de idade. Fonte: Inforpress
É uma estrutura etária particularmente relevante num país que enfrenta envelhecimento populacional.
Também existe diferença entre os sexos: aproximadamente 55,6% dos residentes estrangeiros são homens e 44,4% mulheres.
E a presença dessa população no mercado de trabalho já aparece claramente nas contas da Segurança Social.
Estrangeiros contribuíram com mais de €4,1 bilhões para a Segurança Social
Aqui está um dos números econômicos mais importantes da reportagem.
Pessoas de nacionalidade estrangeira contribuíram com aproximadamente €4,149 bilhões para a Segurança Social portuguesa em 2025.
Isso representou cerca de 14% das contribuições totais pagas ao sistema naquele ano.
Dez anos antes, as contribuições de estrangeiros estavam próximas de €481 milhões.
Ou seja, houve crescimento superior a 760% entre 2015 e 2025. Fonte: CFP
Os dados da Segurança Social mostram presença particularmente relevante de trabalhadores estrangeiros em alojamento e restauração, atividades administrativas e construção.
Na agricultura, o peso proporcional é ainda mais impressionante: mais de 40% dos trabalhadores são estrangeiros.
É um retrato que ajuda a explicar por que imigração e mercado de trabalho se tornaram assuntos praticamente inseparáveis em Portugal.
Mas quanto recebem da Segurança Social?
Esse ponto merece cuidado porque frequentemente aparecem números diferentes nas redes sociais.
O Conselho das Finanças Públicas calculou que, considerando prestações sociais do regime contributivo, estrangeiros receberam aproximadamente €430 milhões em 2025, enquanto contribuíram com cerca de €4,149 bilhões. Fonte: CFP
Há estatísticas mais abrangentes que consideram outras prestações e chegam a valores diferentes.
E existe uma ressalva particularmente importante.
A própria Secretaria de Estado da Segurança Social advertiu que simplesmente subtrair determinadas prestações das contribuições não permite calcular todo o impacto líquido dos estrangeiros nas contas públicas, porque não existe desagregação completa por nacionalidade de todas as receitas e despesas do Estado.
Portanto, dizer simplesmente que “os imigrantes deram X bilhões de lucro a Portugal” seria uma simplificação.
O que os dados permitem afirmar com segurança é que as contribuições dos trabalhadores estrangeiros para a Segurança Social cresceram enormemente e já representam uma parcela relevante do financiamento do sistema.
Lisboa já tem mais de 200 mil estrangeiros
A imigração não está distribuída igualmente pelo território.
Lisboa é o concelho com o maior número absoluto de residentes estrangeiros: 200.073 pessoas.
Eles já representam 30,4% da população do município.
Depois aparecem vários municípios da região metropolitana e do Norte:
Sintra: 98.652
Porto: 60.351
Amadora: 55.457
Cascais: 53.683
Loures: 51.134
Odivelas: 50.082
Almada: 39.098
Seixal: 35.633
Braga: 29.842
Vila Nova de Gaia: 29.626
Os distritos de Lisboa, Setúbal, Porto e Faro concentram cerca de 70% da população estrangeira residente.
Mas existe um município que transforma completamente a escala do fenômeno.
Em Odemira, metade da população é estrangeira
Odemira, no Alentejo, tornou-se um caso singular.
Dos 44.043 residentes do município, 22.038 são estrangeiros.
Em outras palavras, aproximadamente uma em cada duas pessoas que vivem em Odemira tem nacionalidade estrangeira.
E não é o único município com uma presença muito superior à média nacional.
Albufeira chega a 41,6%, Lagos a 39,6% e Loulé a 31,5%. RTP
O Algarve, considerado como distrito, apresenta a maior proporção: 34,5% dos residentes são estrangeiros.
Esses números mostram que falar numa única realidade da imigração portuguesa pode ser enganoso.
Num município, estrangeiros representam poucos pontos percentuais da população. Em outro, podem ser metade dos moradores.
A imigração também saiu dos grandes centros
O fenômeno já não está limitado a Lisboa, Porto e Algarve.
Dos 308 concelhos portugueses, 171 têm mais de mil residentes estrangeiros.
Em 36 municípios, são mais de 10 mil.
Um exemplo está no distrito de Santarém.
Ali, a população estrangeira passou de aproximadamente 18.255 pessoas em 2021 para 52.260 em 2025, quase triplicando em apenas quatro anos. Fonte: Tomar na Rede
Essa dispersão ajuda a explicar por que a transformação passou a ser perceptível também em cidades médias e municípios do interior.
Nem todos os 1,58 milhão estão exatamente na mesma situação documental
Existe outra nuance importante no número divulgado pela AIMA.
A população estrangeira residente contabilizada pela agência não significa simplesmente “1,58 milhão de pessoas com cartão de residência válido”.
Do total, cerca de 1,324 milhão possuíam título de residência válido.
Outros grupos incluem beneficiários de proteção temporária, processos de manifestação de interesse aguardando decisão, títulos em renovação, autorizações CPLP caducadas e pedidos de reagrupamento familiar ainda em análise. Fonte: Ritmo, Voz e Coração de Timor
A própria AIMA ressalva que a data em que um documento é emitido pode não coincidir com a data em que aquela pessoa entrou em Portugal, devido ao volume e à complexidade dos processos administrativos.
Isso também ajuda a explicar por que diferentes organismos podem apresentar números ligeiramente diferentes sobre a população estrangeira.
AIMA e INE não apresentam exatamente o mesmo número. Por quê?
Aqui há uma distinção importante para a matéria não induzir o leitor ao erro.
A AIMA contabilizou 1.585.854 cidadãos estrangeiros residentes no final de 2025.
Já o INE estimou aproximadamente 1,6 milhão, equivalentes a cerca de 14% da população.
A diferença decorre, entre outros fatores, das metodologias utilizadas.
O INE combina informações administrativas provenientes de diferentes organismos, enquanto a AIMA trabalha com seus registros e diferentes situações migratórias.
Os dois retratos, entretanto, apontam para a mesma conclusão: a população estrangeira tornou-se uma componente estrutural da demografia portuguesa.
A dimensão da imigração também aparece nas filas administrativas
O aumento populacional criou outro desafio: processar centenas de milhares de documentos.
Somente em 2025, a AIMA emitiu mais de meio milhão de títulos de residência.
Foram:
337.880 - concessões
189.331 - renovações
A agência registrou ainda 671.273 agendamentos e realizou 605.890 atendimentos durante o ano.
Esses números ajudam a dimensionar a pressão administrativa criada pela transformação migratória dos últimos anos.
Um Portugal diferente daquele de 2017
Em apenas oito anos, Portugal passou de aproximadamente 422 mil para quase 1,6 milhão de residentes estrangeiros.
Brasileiros se aproximaram da marca de meio milhão.
Em Lisboa, três em cada dez moradores são estrangeiros.
Em Odemira, são metade.
E trabalhadores de outras nacionalidades já respondem por aproximadamente 14% das contribuições pagas à Segurança Social.
Ao mesmo tempo, os dados de 2025 mostram que a explosão dos anos anteriores perdeu velocidade: o crescimento anual caiu para apenas 2,7%.
Talvez esse seja o retrato mais preciso do momento.
Portugal não está simplesmente recebendo uma nova onda de estrangeiros. O país parece estar entrando numa fase diferente, em que uma população que cresceu extraordinariamente rápido começa a se consolidar como parte permanente da sociedade, do mercado de trabalho e da economia portuguesa.
E os números mostram que essa transformação já ultrapassou há muito tempo as fronteiras de Lisboa.
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